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NOSSO LIXO

Em: 05/04/2008

 

Encontraram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. È a primeira vez que se falam.

-Bom dia...

-Bom dia.

-A Senhora é do 610.

-E o Senhor do 612.

-È.

-Eu ainda não o conhecia pessoalmente...

-Pois é...

-Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...

-O meu o quê?

-O seu lixo.

-Ah...

-Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...

-Na verdade sou só eu.

-Mmmm. Notei também  que o senhor usa muita comida em lata.

-È que eu tenho  que fazer minha própria comida.E como não sei cozinhar...

-Entendo.

-A Senhora também...

-Me chame de você.

-Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...

-È que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, ás vezes sobra...

-A senhora... Você tem família?

-Tenho, mas não aqui.

-No Espírito Santo.

-Como é que você sabe?

-Vejo uns  envelopes no seu lixo.Do Espírito Santo.

-È mamãe escreve todas as semanas.

-Ela é professora?

-Isso é incrível!Como foi que você adivinhou?

-Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.

-O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.

-Pois é...

-No outro dia tinha um telegrama amassado.

-È.

-Mas noticias?

-Meu pai. Morreu.

-Sinto Muito.

-Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.

-Foi por isso que você recomeçou a fumar?

-Como é que você sabe?

-De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

-È verdade. Mas consegui parar outra vez.

-Eu, graças a Deus, nunca fumei.

-Eu sei, mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...

-Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.

-Você brigou com o namorado, certo?

-Isso você também descobriu no lixo?

-Primeiro o buque de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.

-È chorei bastante, mas já passou.

-Mas hoje ainda tem uns lencinhos...

-È que eu estou com um pouco de coriza.

-Ah.

-Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.

-È. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.

-Namorada?

-Não.

-Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.

-Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.

-Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.

-Você já esta analisando o meu lixo!

-Não  posso negar que o teu lixo me interessou.

-Engraçado. Quando examinei o teu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.

-Não !Você viu meus poemas?

-Vi e gostei muito.

-Mas são muito ruins!

-Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.

-Se eu soubesse que você ia ler...

-Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?

-Acho que não. Lixo é domínio publico.

-Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna publico. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. È a nossa parte mais social. Será isso?

-Bom aí você já esta indo fundo demais no lixo. Acho que...

-Ontem, no seu lixo...

-O quê?

-Me enganei, ou eram cascas de camarão?

-Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.

-Eu adoro camarão.

-Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...

-Jantar juntos?

-È.

-Não quero dar trabalho.

-Trabalho nenhum.

-Vai sujar a sua cozinha.

-Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

-No seu lixo ou no meu?

ISABELA - Luis Fernando Veríssimo



Por: ISABELA
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